21 de jan de 2017

Raças de Gado de Leite



Existem várias opções de raças e cruzamentos para produção de leite. As principais  são:
  1. Raça européia pura, especialmente selecionada para produção de leite, como a Holandesa (H), a Pardo-Suíça ou Schwyz, a Jersey, a Guernsey e a Ayrshire. Dessas a mais conhecida e difundida é a Holandesa;
  2. Raça européia de dupla-aptidão (produção de leite e de carne), como a Simental, Dinamarquesa, Red Poll. Dessas a mais conhecida é a Simental;
  3. Raças Zebu Leiteiras (Gir; Guzerá; Sindi etc.) e
  4. Vacas mestiças, derivadas do cruzamento de raça européia com uma raça zebuína, em vários graus de sangue.
Uma ou a outra opção depende de vários fatores, como: sistema de produção, clima, topografia do terreno (localização da propriedade) etc., bem como da preferência pessoal do produtor. Sem dúvida nenhuma, o sistema de produção a ser empregado na propriedade é o item mais importante a ser considerado na escolha da raça ou do cruzamento. 
O sistema de produção a ser adotado é decorrente do desempenho dos animais existentes e das práticas de manejo utilizadas na propriedade. Este desempenho pode ser estimado pela média da produção de leite por lactação, produção de leite diária, dentre outros. Os rebanhos podem ser divididos em três níveis de produção como, por exemplo:
1) alto, que propiciam produções acima de 4.200 kg/lactação.
2) médio, com produções de 2.800 a 4.200 kg/lactação.
3) baixo, com produções abaixo de 2.800 kg/lactação. 
Na escolha do recurso genético mais adequado para a propriedade em questão, de acordo com o nível de criação e produção, deve-se considerar:
- em propriedades com médias de produção de leite acima de 4.200 kg por lactação, devem ser empregadas as raças européias especializadas, sendo a Holandesa a mais difundida;
- em propriedades com produções de leite entre 2.800 e 4.200 kg por lactação, têm-se como opção o cruzamento alternado com repetição do europeu,  o uso de fêmeas F1 ou o uso de vacas 3/4 Holandês x Zebu; e
- para fazendas com produções de leite inferiores a 2.800 kg por lactação, deve ser adotado o cruzamento alternado simples (Europeu x Zebu); como opção existe a raça Girolando (5/8 Holandês + 3/8 Gir) e as raças Zebu leiteiras.
Tendo por base o desempenho do Sistema Intensivo de Produção de Leite (SIPL-GH) da Embrapa Pecuária Sudeste nos três períodos de intensificação do uso dos recursos genéticos e ambientais e das práticas de manejo (Tabela 1), após o primeiro período (1984-1991) houve substituição gradual das vacas mestiças e cruzadas (até 15/16 de Holandês), existentes no início da formação do rebanho, por fêmeas da raça Holandesa, por meio de cruzamento absorvente e aquisição de novilhas da raça Holandesa (a maioria puras de origem).
Os dados de produção e reprodução observados no SIPL-GH de 1984 a 2001 foram analisados pelo método dos quadrados mínimos, ajustando-se os dados para os efeitos fixos de ano (1984 a 2001) e época de parição (verão, outono, inverno e primavera), grupo genético da vaca (cruzadas, puras por cruza, primeira até sexta gerações controladas, puras de origem), ordem de parto (1 até 6), causa de secagem (pré-parto, baixa produção, outras causas), tipo de parto (normal, distócico, aborto) e sexo do bezerro (macho, fêmea). As médias obtidas são mostradas na Tabela 2, de acordo com o grupo genético das vacas.
Os resultados das análises de variância mostraram que não houve efeito significativo de grupo genético sobre as características estudadas.
As médias de produção de leite por dia de intervalo de partos são maiores do que as relatadas na literatura em rebanhos da Região Sudeste, particularmente naqueles próximos à região de São Carlos, onde a pecuária de leite é praticada com maior nível de intensificação do que noutras regiões.
Tabela 2 – Médias de produção de leite (PL), duração da lactação (DL), intervalo de partos (IP) e produção de leite por intervalo de partos (PL/IP), de acordo com o grupo genético das vacas - Sistema Intensivo de Produção de Leite da Embrapa Pecuária Sudeste, São Carlos, SP (período de 1984 a 2001).



Grupo genético

PL, kg

DL, dias

IP, dias

PL/IP, kg/dia

Cruzadas (até 15/16 Holandês)

5.241

290

411

14,15

Puras por Cruza (PC)

4.836

268

407

14,28

1ª Geração Controlada (GC1)

5.127

280

397

14,71

2ª Geração Controlada (GC2)

5.125

277

391

14,24

3ª Geração Controlada (GC3)

4.988

279

414

14,09

4ª Geração Controlada (GC4)

5.237

280

424

13,60

5ª Geração Controlada (GC5)

5.309

280

417

14,62

6ª Geração Controlada (GC6)

5.578

286

403

15,32

Puras de Origem (PO)

5.150

273

413

14,81






14 de jan de 2017

Reprodução de Pirarucu em Cativeiro


A reprodução controlada e a produção de juvenis saudáveis são fundamentais para viabilização de qualquer indústria que tem como objetivo produzir uma espécie animal em cativeiro. No caso do pirarucu, espécie com grande potencial reconhecido para desenvolvimento de uma nova indústria, ficou claro que a produção de alevinos de qualidade era o entrave principal na produção em escala desse animal. O pirarucu continua sendo reconhecido pelo IBAMA como espécie ameaçada. A pressão da pesca de peixes adultos, devido ao valor da carne de pirarucu, é constante. Uma procura crescente e oferta limitada de alevinos agravam mais ainda o problema de captura ilegal de animais silvestres da natureza. Alevinos também são vendidos com alto custo. Infelizmente, sofrem alto índice de mortalidade. A situação pede melhoras com certa urgência. A produção de pirarucu para consumo em cativeiro, com alevinos necessários produzidos em cativeiro, é a maneira lógica e sustentável para resolver o problema. Informação e entendimento sobre a biologia e o comportamento dessa espécie ainda não foram adequados para viabilizar a industrialização de sua produção em cativeiro. Devido a essa urgência para comercialização de carne de pirarucu, a tecnologia sobre sua reprodução em cativeiro teve que começar com a aprendizagem básica sobre o comportamento e o histórico natural do pirarucu.
Durante a última década, a proposta de conhecer melhor esse animal e desenvolver técnicas úteis e práticas para viabilizar a produção em cativeiro dessa espécie vem sendo o objetivo do profissional especialista em aquicultura, Martin Richard Halverson. As técnicas utilizadas pelo autor para entender melhor o comportamento reprodutivo do pirarucu foram baseadas no estudo científico de comportamento de animais silvestres, a etologia.
Todos os comportamentos possíveis dos animais estudados são catalogados para análise dos seus significados. Este registro dos comportamentos continua sendo complementado e reavaliado até hoje. Muitas observações e aprendizagens foram possíveis devido a oportunidades de observar o pirarucu de perto, sem ser visto pelos animais. Citando um exemplo, para observar detalhes de uma fêmea chocando seus ovos no seu ninho, é necessário chegar perto e permanecer em silêncio por horas. Assim foi observado que os peixes utilizam um sistema de comunicação sonoro. Foi possível ver e ouvir a chamada, até sentindo as vibrações transmitidas pela terra, o som feito por um movimento brusco da sua cauda. Esta chamada provocou o macho vir e ficar no lugar da fêmea enquanto ela subiu para respirar.
Reprodução de Pirarucu IntroduçãoAs experiências trabalhando com reprodução, alevinagem e engorda de várias espécies de peixe em cativeiro, lições aprendidas em laboratórios de reprodução de tilápia e channel catfish, assim como de outras espécies, foram fundamentais para poder enxergar e entender o significado dos comportamentos envolvidos na reprodução do pirarucu. Hoje, sabemos que a reprodução de pirarucu tem muito em comum com a reprodução dessas duas espécies acima algumas pessoas que se dedicaram em trabalhar com pirarucu e ofereceram oportunidades para aprender junto com eles: Paulo Teodoro Oliveira, Jaime Brum, Jacob Kehdi, João Roberto Garcia, Eduardo Ono, Ângelo Coutinho, Elthon Lago e João Menandro Fair. Agradecimento especial a Roberta Figueiredo do SEBRAE/RO pela sua visão e dedicação no caso do pirarucu e a todos os envolvidos no Projeto Estruturante do Pirarucu da Amazônia do SEBRAE.
As tentativas de estabelecer produção em escala comercial de pirarucu em cativeiro, em geral, encontraram dificuldades e, até agora, não existe uma indústria bem-sucedida produzindo essa espécie em cativeiro. Apesar do fato de que alevinos de pirarucu foram produzidos em cativeiro durante a década de 1950, por um grupo de biólogos que trabalhou dentro do projeto federal do DNOCS no Ceará (1), a produção comercial de pirarucu em cativeiro não deslanchou. Naquela época, não existia tecnologia adequada, muito menos elementos de uma cadeia produtiva de piscicultura para estimular e sustentar uma indústria produzindo esse peixe em cativeiro. Alevinos produzidos dentro do projeto do DNOCS foram soltos em lagoas e reservatórios para controlar uma população indesejável de piranhas, onde sobreviveram e cresceram bem até que todos foram eliminados por pescadores. Devido à disponibilidade limitada, alevinos de pirarucu sempre foram caros. Frequentemente capturados da natureza e geralmente de baixa qualidade, apresentando enfermidades variadas, como verminose e parasitos protozoários nas brânquias, mostrando-se malnutridos e malpreparados para entrar em engordas, não tiveram muita chance de sobreviver em cativeiro. Produtores enfrentando estas dificuldades geralmente ficaram desanimados com as experiências com pirarucu.
Na natureza, peixes adultos cuidam dos filhotes constantemente durante os primeiros meses de vida, protegendo-os de um grande leque de predadores nativos da Bacia Amazônica. Mesmo com este cuidado, peixes pequenos são vulneráveis aos insetos, pássaros, peixes, tartarugas, cobras, jacarés e até outros pirarucus. Reservatórios utilizados em sistemas extensivos de cultivo ao redor da Região Norte do Brasil acabam formando ecossistemas ricos em fauna, incluindo estes predadores capazes de comer pirarucu. Sem a proteção dos pais, muitos peixes pequenos estocados nesses reservatórios sumiram. A não realização de práticas de manejo apropriadas em geral dificultou as tentativas de cultivo intensivo dessa espécie em cativeiro. Rações adequadas para peixes carnívoros somente apareceram no mercado brasileiro em anos recentes, com interesse crescente no cultivo comercial de outras espécies carnívoras nativas, como o pintado e outras espécies de peixes marinhos.
Estratégias extensivas que funcionaram melhor envolviam estocagem de alevinos maiores em reservatórios junto com peixes forrageiros. Nesta situação, pirarucus crescem rapidamente, alcançando maturidade sexual em 4 ou 5 anos quando pesam de 50 a 100 kg. Apesar das dificuldades citadas, principalmente durante a última década, a produção de pirarucu vem aumentando, resultando em estoques significativos de peixes em cativeiro. Como os pirarucus reproduzem naturalmente em reservatórios, que apresentam condições parecidas com seu ambiente natural, alevinos produzidos extensivamente em reservatórios viraram a primeira geração de pirarucu produzido em cativeiro. Existem peixes hoje em cativeiro varias gerações removidas dos seus ancestres selvagens. Esses peixes servem hoje como base genética de uma nova indústria. Produtores que controlaram melhor a reprodução desses animais ganharam mais experiência com pirarucu, repassando sua produção limitada de alevinos para outros produtores, e aumentando mais ainda os estoques e alimentando o interesse no pirarucu.
Histórico da Produção de Pirarucu em Cativeiro
Anos de observação de pirarucu em cativeiro vêm trazendo maior conhecimento do processo reprodutivo da espécie. Experimentação e manipulação dentro do ambiente de cativeiro foram fundamentais na identificação dos fatoreschaves que estimulam a reprodução do pirarucu. Trabalhos com pesquisa e desenvolvimento realizados dentro do setor privado, incluindo a piscicultura Só Peixes da Amazônia em Pimenta Bueno, Rondônia, vêm mostrando resultados animadores. Hoje, a reprodução de pirarucu em cativeiro é bem mais previsível, sendo já uma realidade a produção em escala de alevinos de alta qualidade. Alevinos de qualidade utilizados em projetos de engorda de pirarucu mostraram claramente a sua importância, com crescimento rápido, conversão alimentar boa, uniformidade de tamanho e alta taxa de sobrevivência em sistemas tradicionais de cultivo, criando assim uma nova realidade para a longa espera da indústria de criação de pirarucu em cativeiro.
Com fornecimento seguro de alevinos de qualidade, surgiu a oportunidade para a montagem de testes a campo com diferentes rações, sistemas produtivos e estratégias de engorda. Análise dos resultados destas experiências em “unidades de observação” serve para indicar boas práticas para engorda de pirarucu. Ao longo dos últimos três anos, estes trabalhos com reprodução e engordas foram realizados dentro do Projeto Estruturante da Pirarucu da Amazônia do Sebrae.
Em seu ambiente natural, durante a época de chuva, o pirarucu explora as áreas alagadas da Bacia Amazônica, nadando tranquilamente no meio da vegetação em busca de comida. Mostrando grande flexibilidade no seu comportamento alimentar, esse peixe possui uma boca enorme que produz uma sucção explosiva, sendo possível ouvir o momento da captura de peixes, cardumes de camarão ou outros pequenos animais de longas distâncias. O pirarucu também é capaz de filtrar organismos pequenos da água utilizando seus “rastros branquiais”.
Estrutura da Cavidade Oral do Pirarucu
Lagos marginais do Rio Araguaia
Quando faltam alimentos preferidos, o peixe separa crustáceos, moluscos e outros organismos bênticos do substrato. Aparentemente sua língua óssea ajuda quebrar alimentos como moluscos ou crustáceos. Na época da seca, as águas que alagaram o mato voltam para os rios. Os pirarucus evitam os canais principais dos rios, preferindo permanecer em lagos marginais
Pirarucu em seu Ambiente Natural
O nível de água desses lagos diminui durante a seca, podendo secar completamente. Os pirarucus estão entre as poucas criaturas que sobrevivem nesses lagos no final da época seca, e consomem todos os organismos que são capazes de engolir. Sua tolerância de adensamento e baixa qualidade de água são expressões de sua capacidade genética adaptada para sobreviver sob essas condições difíceis. O início da época chuvosa sinaliza o ciclo reprodutivo do pirarucu, repleto com seus rituais misteriosos definidos durante centenas de milhões de anos de existência. Sua coloração normal, que varia entre marrom, castanho ou esverdeada, e depende da coloração da água onde se encontra, toma detalhes de vermelho intensificado na lateral dos animais. Casal de Pirarucu fora da época de reprodução.
Macho fora da Época de Reprodução.
Macho Durante a Época de Reprodução.
Tranqüilos em compartilhar espaço com outros pirarucus antes das chuvas, agora pancadas barulhentas das caudas perturbam o reino do pirarucu. Dirigidos por hormônios fluindo em resposta às chuvas, machos e fêmeas entram em lutas agressivas para mostrar quais são os mais fortes. Passam dias ou até semanas definindo e defendendo territórios. As chuvas continuam, os hormônios aumentam, e encontros de grupos de peixes agora são motivos para mostrarem-se concorrentes, exibindo uma dança elaborada. De alguma forma, somente quem pertence a sua espécie entende a superioridade dessas demonstrações, acabando por definir quais animais se acasalam, e nesse contexto, ganharão direitos reprodutivos. Pares monogâmicos formados desses peixes dominantes, os “casais alfas” começam a nadar juntos, procurando locais aptos dentro dos seus territórios respectivos para escavar seu ninho. Através de observações de peixes reproduzindo em lagos natural e em cativeiro, acredita-se que o número de casais podendo se formar é limitado pela área.
As chuvas aumentam as áreas alagadas, juntando lagos pequeno e expondo áreas novas aptas para construção de ninhos. Assim, outros peixes acabam formando casais e reproduzindo somente depois dos peixes dominantes. A qualidade da água desses lagos no início da época da chuva ainda não é boa, frequentemente sendo inadequada para sobrevivência de ovos ou larvas, que requerem níveis de oxigênio dissolvido bem mais altos do que os adultos. Quando a água da chuva começa a aumentar o volume dos lagos, as condições melhoram. Acredita-se que os peixes dominantes, que reproduzem antes do que os outros, ganham uma vantagem distinta em termos da probabilidade de sobrevivência de suas proles.
Alagamento da Floresta Amazônica, com sua cama rica em matéria orgânica e vegetação, fornece material abundante para sustentar “blooms” de plâncton e outros organismos aquáticos, que são alimentos de filhotes de pirarucu. Foi observado em cativeiro que alevinos de pirarucu mais velhos e maiores comem alevinos menores. Em um mundo cheio de predadores, idade e tamanho são atributos importantes, principalmente para filhotes. Pares dominantes reproduzem antes dos outros, bem quando a qualidade de água e a fonte de alimentos estão ficando adequadas, conferindo maior sobrevivência.
O casal defende seu território e escolhe um local em solo firme em que o macho escava com sua boca um ninho circular de aproximadamente 40 cm de diâmetro, com centro mais fundo de uns 20 cm. Fêmeas depositam ovos verdes, relativamente grandes com +/- 2,5 m de diâmetro. Os ovos sentam no centro do ninho, onde o macho os fecunda. Os ovos aderentes formam uma massa circular e coesiva (veja Fotos), não por coincidência sendo exatamente o tamanho e o formato da boca do macho, fato relevante no momento em que aparece uma ameaça, pois o macho coloca a massa inteira em sua boca, levando-a para outro lugar seguro.
A fêmea é guardiã principal do ninho, parando com sua cabeça em cima do ninho e movimentando a água sobre o ninho com suas nadadeiras peitorais. Uma fêmea é capaz de permanecer no ninho até 45 minutos sem subir para respirar. O macho a substitui momentaneamente enquanto ela sobe para respirar. Ele vigia o perímetro em volta do ninho, geralmente de 5 a 10 metros da fêmea. Normalmente, os pais não se alimentam durante esse período. O macho respira com mais frequência, pois gasta mais energia. Caso um predador se aproxime ou alguma outra ameaça seja percebida, o macho é capaz de catar a massa de ovos do ninho em um instante, levando- os na boca. Ele pode devolver os ovos para o ninho logo em seguida, ou levá-los para outro ninho escavado por perto. Também é capaz de manter os ovos (ou larvas) na boca por um tempo maior, até a hora da eclosão ou mesmo após elas. Os ovos demoram +/- cinco dias para eclodir, e as larvas (veja Foto) permanecem mais quatro dias até que fiquem prontas para sair nadando do ninho, acompanhadas pelo pai. Sem intervenção pelo pai, o processo inteiro de uns nove dias acontece dentro do ninho. Larvas saiem do ninho e sobem pela primeira vez, acompanhadas pelo macho. Ele agora tem
Massa de ovos de uma desova.
Ovos de Pirarucu fecundados.
uma cor preta, transformação que acontece somente no final da incubação da prole. Forma uma bela coloração o vermelho brilhante sobre o preto. As larvas de um cm de comprimento, agora são escuras também, ainda com uma mancha verde na barriga o último vestígio do saco vitelino. Formam uma “nuvem” preta, abrindo e fechando, nadando lentamente perto da cabeça do pai em busca de alimento. A invasão das águas alagando a floresta e sua cama de vegetação garantem produção de plâncton. É a fêmea agora que vigia o perímetro, espantando possíveis predadores. Assim a família nada pela floresta alagada, mantendo o contato íntimo entre pai e filhotes durante o primeiro mês, e permanecendo juntos até dois meses. Os filhotes crescem rapidamente, nunca deixando de filtrar o plâncton, mas fazendo a transição para outros alimentos maiores, incluindo larvas, insetos, crustáceos e peixes pequenos.
ser coletados em uma única desovaFêmeas
mostram um potencial bem animador
Teoricamente, mais de 40.0 ovos poderiam adultas desovam perto de 200 ovos por kg do seu peso, e existem fêmeas de mais de 200 kg. De outra forma, uma desova pesando 1.0 g teria 45.0 ovos, sendo que são +/- 45 ovos hidratados por grama, existindo relatos de desovas deste tamanho. Fêmeas desovam até sete vezes por ano. Fazendo as contas, parece ser possível produzir até 300.0 ovos de uma fêmea em um ano. Ainda não chegamos perto deste nível de produção, mas esses resultados
A realidade da produtividade de alevinos é bem inferior o seu potencial. Utilizando uma estratégia semi-extensivo, em tanques de cativeiro com controle de qualidade de água e de predadores, uma única desova tipicamente produz de 1.0 a 4.0 alevinos pequenos de
Apesar dos cuidados constantes dos pais, os números vêm diminuindo diariamente devido a ataques de predadores. Pescadores tipicamente capturam de 50 a 500 alevinos de 7 a 10 cm de uma desova na natureza.
*Enquanto a literatura sugere que a língua óssea do pirarucu deve servir para segurar ou esmagar presas, possivelmente esse órgão curioso é utilizado para segurar a massa de ovos. A massa de ovos é lisa e delicada. Respiração aérea do macho enquanto segura uma massa de ovos seria difícil sem a engolir ou perdê-los. A língua áspera do pirarucu provavelmente serve para segurar uma massa de ovos, principalmente durante a respiração.
5 cm. Intervenção antecipada de um processo produtivo em que ovos ou larvas são tirados diretamente da proteção dos pais, parecido com as práticas utilizadas com tilápia e catfish, aumenta significativamente a renda. Captura de larvas recém-eclodidas do ninho já rendeu até 12.0 larvas. Desovas de mais de 20.0 ovos já foram capturadas. Uma das consequências interessantes da remoção antecipada de ovos e larvas é de que o casal volta a desovar depois da remoção da sua prole, sendo possível uma desova em média a cada 21 dias. Com coletas de rotina, um casal desova até sete vezes em um ano, num período de cinco meses. A incubação de ovos em laboratório demonstrou eclosão de 70%.
Enquanto todo isso é positivo, varias fatores atrapalham realização de produção mais sucedida, mesmo com orientação técnica
Reprodução em Cativeiro Potencial Produtividade e estratégia bem planejada. Planteis de reprodutores geralmente incluem peixes que não cresceram perto do seu potencial, devido falta de comida. Enquanto um peixe de cinco anos poderia pesar mais de 100 kg, muitas vezes não chegam perto disso. Não podemos esperar produção positiva de reprodutoras mal nutridas. Muitos potenciais reprodutores foram comprados em lotes pequenos de alevinos, e são de fato irmãos. Não podemos esperar bons resultados cruzando irmãos. Estruturas e recursos físicos inadequadas não ofereçam condições ótimas para reprodução e produção de alevinos. Falta de experiência dificulta aplicação de boas práticas de manejo. Com otimização da tecnologia disponível, atualmente produtores dedicados poderiam esperar uma produtividade de 10.0 alevinos (ou mais) por fêmea adulta por ano. Eventualmente podemos esperar produção de até 50.0 alevinos por fêmea por ano.
Experiências com manejos de reprodutores de pirarucu em cativeiro, com o objetivo de estimular sua reprodução, mostraram resultados de todas as formas. As que não funcionaram e ensinaram como não fazer e os acertos que indicaram quando estávamos no caminho certo. Estas “pesquisas práticas” sempre foram montadas com o objetivo de desenvolver estratégias que produzirão resultados positivos e reproduzíveis. Quando começaram acontecer muitas desovas, abriu-se uma grande oportunidade para aprender rapidamente em como lidar com a larvicultura, alevinagem e treinamento alimentar em escala.
A pressão de ter dezenas de milhares de larvas de pirarucu de repente entrando no laboratório de uma vez forçou a procura de técnicas mais eficientes e convenientes. A consolidação do corpo de informação relacionado à reprodução de pirarucu em cativeiro, fez com que hoje exista uma tecnologia apropriada para produção econômica de alevinos de pirarucu de qualidade e em quantidades necessárias para deslanchar uma indústria. Produtores seguindo essas recomendações terão as ferramentas necessárias para produzir alevinos de pirarucu com êxito, evitando problemas maiores, e participando no início de uma atividade ainda inovadora e excitante. Procurar novas descobertas e melhorar a base tecnológica existente é desafio que unifica todos os participantes dessa atividade. Bom serviço e boa sorte para todos!
Pesquisa Pratica com Êxito
Captura e transporte de pirarucu sempre foram arriscados. As histórias sobre tentativas de capturar e transportar pirarucus grandes, relata uma grande incidência de mortalidade de peixes e pessoas machucadas. Peixes adultos são grandes, com força explosiva, capazes de machucar eles próprios ou as pessoas que resolvem manuseá-los. Sendo respiradores de ar, correm risco de afogamento durante o manejo dentro da água. Equipamentos adequados, equipes de cinco ou mais pessoas experientes e fortes e uma boa estratégia são importantes ferramentas na hora de capturar e transportar pirarucu.
Em geral, deveriam ser observadas as seguintes orientações na captura e manejo de pirarucus grandes:
- Utilização de equipamentos adequados, incluindo rede resistente, macas e tanques de transporte. - Tentar capturar um ou poucos peixes na rede, removendo os peixes imediatamente da água.
- Trabalhar em águas rasas.
- Colocar peixes dentro de “macas” para transporte fora da água, de um tanque para outro ou até um tanque de transporte. Os animais são bem resistentes. Em Rondônia, um grupo de 65 peixes adultos foi capturado em vários locais e transportado até a piscicultura Só Peixes da Amazônia sem perder um único exemplar. Durante três anos de manejo desse plantel, mudando peixes de um tanque para outro, não houve uma única mortalidade, nem um acidente com funcionários requerendo atendimento médico.
Redes devem ser altas (cinco ou seis metros), pois assim a rede acaba formando uma bolsa, que dificulta fuga por cima ou por baixo. Pirarucus grandes geralmente saltam quando sentem que estão presos e a área da rede fica apertada. Redes equipadas com bolsa adicional construído no fundo fazem com que os peixes demorem mais para saltar, dando mais tempo para fechar a rede antes da inevitável tentativa explosiva a fugir. O comprimento necessário dependerá do tamanho dos tanques utilizados. Redes devem ser fabricadas de linha bem resistente. Serve linha multi-filamenta de 210-096, ou parecida. Malhas de 25 a 50 m são mais apropriadas. Redes de alevinos não são adequadas, pois malhas menores não vêm com linhas muito resistentes. Redes que rasgam durante a captura raspam a pele dos
Estratégias de Manejo de Reprodutores
Equipamentos e como utilizá-los:
Cuidados com manejo de peixes adultos:
Captura de Reprodutor com Rede de Arrasto (2 peixes na rede) peixes, machucando-os. Estresse de captura já é significativo para os peixes. Passando pelo processo repetidamente pode ser insuportável. Puxando e fechando a rede rapidamente acelera o processo da captura, diminuindo risco de acidentes.
Macas servem para carregar peixes manualmente fora da água
A maca deve ser fabricada de material liso para não machucar o animal e resistente para não permitir queda de peixes. O Transporte é realizado sem água. Saídas de água (cortes pequenos ou telas) no fundo da maca são importantes para drenagem rápida de água da mesma. A maca fechada deve ficar escura, deixando os peixes mais tranqüilos. Devem ser de aproximadamente 2 a 2,5 m de comprimento, 60 cm de altura e 60 cm de largura. Um pano de lona resistente de 2,5m x 1,8 m, com dois painéis de 60 cm x 60 cm costurados e arrendados para fechar os fundos servem para fabricar uma maca. Cabos de corda ou madeira podem ser utilizados. Os peixes são colocados dentro das macas com a barriga para baixo. A abertura superior deve ser mantida fechada para evitar que os peixes escapem. Quatro a seis pessoas são necessárias para carregar um peixe adulto com segurança. Os animais devem sair da maca pela frente, deslizando pela barriga até entrar na água do tanque recipiente. É bom trabalhar com várias macas e equipe adequada no manejo de vários peixes.
Transporte Adequado para Pirarucu (TAP) é tanque simples, pequeno e portátil para transporte de um indivíduo adulto. Fabricado de lona, suspenso em armação de ferro, o tanque fica em cima de caminhões ou outros veículos (veja Foto). Com espaço mínimo para se mexer, e sem material rígido ou áspero exposto no interior do tanque, pirarucu não tem como se machucar. Dimensões do tanque devem ser de aproximadamente 2,5m de comprimento x 70cm de largura (medida de abertura da armação de ferro superior) x 90 cm de altura. Tanques podem ser maiores ou menores dependendo do tamanho dos peixes. Importante é que o peixe não fique com a cauda dobrada, nem com muito espaço livre, podendo virar. Material deve ser lona resistente, liso e impermeável para segurar água. Tanques mais resistentes podem ser fabricados utilizando duas camadas de lonas - uma interior de material plastificado e liso e uma exterior de material bem resistente.
Renovação de água para manter água limpa é necessário. Aeração não é necessário. Um pano de rede amarrada por cima evita qualquer possibilidade em pular fora. Tanques deveriam ser posicionados perpendiculares à direção de movimento do veículo.
Carregando Peixe Grande em Maca
Assim os tanques balançam, sem sair água deles. Deve encher para manter 20 cm de borda livre, cobrindo completamente o peixe com água, sem que a barriga do peixe encoste-se ao fundo do tanque.
Peixes agüentam viagens longas com esse sistema de transporte. Peixes são removidos do TAP com a maca, sendo necessário colocar a maca dentro do TAP e o peixe dentro da maca, erguendo a maca para escoar água antes de remover o peixe.
A Captura
Planejamento para a captura e transporte de peixes grandes é importante, sendo necessário providenciar todos os equipamentos necessários, equipe de trabalho e hora prevista do serviço. Não se deve capturar pirarucus quando a temperatura da água é menos de 23 graus C, nem acima de 32 graus C, sendo aconselhável trabalhar de amanha durante os meses mais quentes.
Abaixar o nível do tanque de onde vai retirar os peixes na preparação da captura é importante. Em águas de mais de um metro de profundidade, pirarucus podem saltar e atingir as pessoas no tórax, no pescoço ou na cabeça, sendo potencialmente letal. Reduzir a área do tanque facilita a visualização dos peixes e melhora a eficiência da captura.
- Deve se passar rede de arrasto em áreas livres de obstáculos. Desenroscar uma rede presa em toco ou outro objeto fixo é extremamente perigoso com pirarucus grandes dentro da rede. Peixes assustados podem se machucar gravemente ao bater em objetos sólidos também.
- Nunca se deve deixar os pescadores ficarem atrás da rede. Os peixes “atacam” a rede com força. Também não devem entrar na rede, principalmente quando a rede está em processo final de fechamento.
- A melhor posição das pessoas na hora de fechar uma rede com pirarucu grande é nas duas pontas da rede e totalmente fora da água.
- Tentar capturar um ou poucos peixes em cada fechamento da rede. Peixes não removidos imediatos da rede precisam de espaço para se manter em posição normal para não sofrer risco de afogamento.

- É quase impossível segurar um peixe adulto dentro da água com as mãos. São fortes e lisos. Podem ser removidos da água com um puçá (veja seqüência de fotos), com uma rede (de dormir) ou colocando-o diretamente na maca. Um problema comum é que falta pessoal para segurar a rede e também retirar os peixes.
- Uma técnica boa para realizar a captura é remover peixes da água com a própria rede, colocando o peixe no chão, com a barriga para baixo. É possível remover dois peixes adultos com essa técnica, com seis pessoas fortes, desde que não tenha barranco alto. Com mais de dois peixes na rede, precisa de mais pessoas para remover os peixes e colocar rapidamente em macas.
-Tanques com “praias”, ou saídas com declives suaves facilitam as despescas. Terras bem gramadas são mais macias para acolchoar peixes no chão. Um colchão velho é excelente para proteger os peixes durante manejos.
- Tanques com “praias”, ou saídas com declives suaves facilitam as despescas. Terras bem gramadas são mais macias para acolchoar peixes no chão. Um colchão velho é excelente para proteger os peixes durante manejos.
- Geralmente pirarucus não mordem fora da água. A cauda é perigosa! Os peixes batem muito forte lateralmente com a cauda enquanto sentados de barriga para baixo, podendo quebrar pernas. Uma pessoa deve segurar a cabeça, sentando em cima do animal, com a cabeça do peixe entre as pernas. Os peixes respiram fora ou dentro da água, da mesma maneira; levantando a cabeça, exalando pelo opérculo, e abrindo a boca para inalar. A pessoa segurando a cabeça não deve atrapalhar esse movimento. Uma pessoa encostada de cada lado do centro do animal segura seus movimentos, sem ficar exposta a cauda. Peixes deitados de lado podem pular e se machucar. É importante manter os peixes de barriga para baixo.
Tudo indica que é importante alimentar bem os reprodutores. Precisam ser bem nutridos para produzir ovos e larvas de qualidade e em quantidade. Como o potencial produtivo de cada fêmea dependerá do tamanho dela, o crescimento é importante. Sendo animais carnívoros, preferem comer peixes frescos ou vivos. Pirarucus em cativeiro aprendem rapidamente a ficar esperando comida quando tratados sempre no mesmo local. “Domesticando” peixes a comer na mão é interessante, pois a falta de interesse pela comida é sinal que estão mais interessados em reproduzir do que em comer. Preferem comer peixes pequenos, ou pedaços de peixes maiores. Peixes ou pedaços de 200- 300 g são ideais. É possível tratar reprodutores com ração, desde que a ração seja para peixes carnívoros, e de alta qualidade. Geralmente rações comerciais têm tamanho de “pellets” aquém do tamanho adequado para peixes grandes, e acaba sobrando. Qualidade de água é importante em tanques de reprodução, principalmente durante a época de reprodução, e evitar sobras de alimentos é fundamental. Uma prática utilizada por vários produtores é de misturar ração comercial com peixe moído, formando bolas. Dificilmente existe uma ração com qualidade nutricional igual a um peixe vivo. Custos de produção podem ser determinantes na hora de resolver a questão do alimento mais adequado para os reprodutores. Estocagem de peixes forrageiros vivos, juntos com reprodutores é interessante do ponto de vista nutricional. Problema com essa prática é que peixes forrageiros podem ser ameaças aos ovos ou filhotes de pirarucu. Uso de ração e peixes forrageiros é interessante com grupos de peixes juvenis, sendo alimentados como reprodutores futuros. Os peixes forrageiros limpam as sobras de ração e ajudam manter os peixes saudáveis e crescendo bem. Pelo menos durante a época reprodutiva, tratar peixes acasalados manualmente com peixes frescos é a melhor opção. Bons resultados foram conseguidos tratando peixes frescos à vontade, uma vez por dia, sendo perto de 1% do seu peso por dia.
Alimentação de Reprodutores
Reprodutores bem tratados dificilmente apresentam doenças graves. Ocasionalmente podem aparecer parasitos externos, como Argulus ou “piolho”. Essas enfermidades podem ser tratadas com o produto Masoten, seguindo orientações do fabricante.
A possibilidade de trabalhar com “desovas induzidas” de pirarucu é duvidosa. Nenhuma tentativa conhecida em estimular desovas com aplicação de hormônios resultou em uma desova bem-sucedida. O órgão reprodutivo de pirarucu não apresenta condição apta para desovas induzidas A maioria das espécies de peixe comercialmente importante e produzida em cativeiro realiza desovas completas, onde todos os ovos são do mesmo padrão, e todos são expulsos juntos, ou em poucas horas. “Desovas induzidas” geralmente envolvem aplicações de dosagens “pesadas” de hormônios com o objetivo de desencadear a desova completa de todos os ovos que ocupam o ovário de uma vez. A extrusão manual de ovos, prática utilizada com muitas espécies sendo induzidas, seria muito difícil com pirarucu. A captura de peixes grandes é bem estressante para eles. Apertar a barriga de uma fêmea gigante para extrusão de pequenas quantidades de ovos repetidamente é inviável. A maturação e a desova de ovos de pirarucu são parceladas, significando que somente uma porção dos ovos do ovário chega a amadurecer junto.
fornecidas aos peixes
Peixes com esse tipo de ovário geralmente não respondem bem a essa estratégia de indução hormonal, e também não precisam desse tipo de indução. Caso mais conhecido é do tilápia, peixe de desova parcelada, reproduzido no mundo inteiro sem uso de hormônios. Grande motivo para acreditar que não é necessário aplicar hormônios para estimular a reprodução de pirarucu é que já foi possível realizar até sete desovas em um ano de uma única fêmea sem uso de hormônios. A “desova natural” funciona com pirarucu, desde que condições adequadas sejam
Uma rotina de administração crônica de hormônios com implantes ou administração oral para estimular desovas fora da época normal de reprodução de pirarucu poderia ser interessante. Ainda acredito que teria que manipular condições ambientais para viabilizar essa estratégia, sendo possível realizar desovas sem uso de hormônios. Como é o caso na natureza, existem animais geneticamente inferiores, sem condições de reproduzir, ou pouco eficientes. Em plantéis de reprodutores de projetos comerciais, seria aconselhável selecionar indivíduos e linhagens de peixes mais aptos para reprodução, eliminado do plantel animais menos produtivos.
Doenças Reprodução “Natural”
Muitos trabalhos com pirarucu já foram realizados com o objetivo de distinguir seu sexo, uma vez que fora da época de reprodução não apresentam características externas que indicam imediatamente o sexo do animal.
Coloração avermelhada na parte ventral da cabeça é característica dos machos adultos durante a época reprodutiva (veja Fotos), enquanto essa parte das fêmeas permanece branca. Machos mostram diferenças distintas de coloração quando estão cuidando de filhotes, ficando preto com vermelho vivo. Machos e fêmeas do casal mostram os comportamentos bem diferenciados descritos anteriormente.
Como a marcação requer captura dos peixes e é estressante para o animal, é importante aproveitar a oportunidade de realizar marcação de peixes durante qualquer manejo necessário deles. Quando for possível, é melhor fazer a marcação fora da época de reprodução. Peixes identificados como macho e fêmea durante a época reprodutiva não deveriam ser capturados somente para marcar, sendo indicada marcação posteriormente. Marcação definitiva pode ser feita com marcadores PIT implantados na base anterior da nadadeira dorsal. Outra opção é utilizar marcadores simples de plástico, que são baratos e duráveis.
Identificação de Sexo
Utilizamos marcadores rosa para identificar fêmeas e amarelas para machos. Podem ser colocados no mesmo local em frente da nadadeira dorsal, e são visíveis durante a respiração dos animais. A vantagem do marcador externo é que a identificação, depois é bem menos invasiva, não sendo necessário capturar os peixes. Por enquanto, o sistema mais fácil, seguro, barato e disponível a todos para identificação de sexo seria de marcadores externos de plástico. Outra opção é trabalhar com ambos.
Hormônios sexuais, incluindo testosterona e estrogênio podem ser analisados para distinguir machos de fêmeas. Em Peru essa técnica foi empregada para identificar sexo de peixes adultos e juvenis (2). Análise desses hormônios no Brasil mostrou resultados mais complexos. A relação entre a concentração dos dois hormônios foi muito diferente do que os resultados do estudo peruano, com peixes de casais já formados mostrando um padrão bem diferente do que peixes “solteiros”. Esse fato mostra que acontecem mudanças significativas com a concentração de hormônios depois da formação do casal. Assim, medição de hormônios ou seus precursores deve ser avaliado com cuidado, ciente do fato que as concentrações dessas substâncias variam muito ao longo do ciclo reprodutivo do pirarucu, e entre animais, dependendo da sua posição social do grupo.
O estudo no Peru com análise de vitelogenin, substância ligada com desenvolvimento e maturação de ovócitos e presente somente em fêmeas, foi confiável para identificação de sexo de pirarucu. Limitação dessas estratégia é que somente foi definitiva para sexagem de peixes adultos. Problema é que às vezes não sabemos se um animal é adulto ou não.
Canalização, ou introdução de cateter ou sonda urinária no oviduto, processo utilizado na avaliação de ovócitos de outros peixes, não é possível com pirarucu sem machucar o animal devido ao formato do poro genital.
Laparoscopia é processo cirúrgico envolvendo remoção de uma escama no local da gônada (ventrolateral, do lado esquerdo), cortando com bisturi a pele, musculatura e peritônio e introduzindo um tubo rígido com lente ocular para visualização direta do ovário ou testículo. Esse procedimento está sendo empregado no Estado do Ceará, dentro do projeto de pirarucu do DNOCS para sexagem de juvenis de 8 ou 10 kg (3).
Análise de DNA, com o objetivo de distinguir o sexo do pirarucu seria método confiável e menos estressante de sexagem. O desafio de identificar o sexo, analisando tecidos, como pele ou escama, foi objetivo de vários estudos realizados nos últimos anos, mas essa tecnologia ainda não está disponível para identificação do sexo de pirarucu.
Ultrassom convencional não consegue atravessar as escamas para observar órgãos internos. Ultrassom com sonda trans-retal, de espessura fina para entrar no reto do animal é equipamento interessante para visualizar os órgãos sexuais. Serve para sexagem imediata e também para avaliação do desenvolvimento das gônadas. Sondas “transretais” de boi, ovinos, ou seres humanos não são adequadas. Equipamento especializado é necessário para realizar esses exames.
***Desenvolvimento de um exame rápido e não invasivo, com resultado saindo na beira do tanque seria ideal para facilitar tomada de decisões imediatas a respeito do manejo de reprodutores.
“Hormônios sexuais, incluindo testosterona e estrogênio podem ser analisados para distinguir machos de fêmeas”. (...)
Pirarucus reproduzem dentro da Bacia Amazônica durante a época de chuva. Existem certas condições que são requerimentos absolutos para que aconteça a reprodução. Basicamente, peixes saudáveis formarão casais reprodutivos quando tiverem substratos adequados para construção de ninhos, em um metro de água, com transparência adequada para os peixes se ver, temperatura da água acima de 29o C, e pancadas de chuvas fortes. Sobrevivência das proles depende de uma qualidade de água adequada, alimento suficiente e proteção contra predadores. O processo reprodutivo é complexo, com uma etapa do processo necessária para desencadear outra, uma seqüência de estímulos ambientais desencadeando respostas comportamentais dos peixes, cujos acertos em harmonia com as mudanças ambientais são necessários para garantir sobrevivência dos filhotes.
Precisamos lembrar e entender aquilo que acontece na natureza. Lá, o ambiente aquático do pirarucu sofre grandes mudanças com o processo reprodutivo de pirarucu englobando essas mudanças. Os animais que conseguem reproduzir no momento certo, no local certo, aproveitando qualidade de água adequada que confere sobrevivência dos seus ovos e larvas, em seguida as larvas tendo acesso a alimento suficiente, serão aqueles cujos genes continuarão sobrevivendo. Formação de casais é a etapa inicial do processo reprodutivo de pirarucu. Desova e incubação são outras etapas, e cuidar dos filhotes é ainda outra. Acontece que o ambiente ideal para formação de casais não é o mesmo que o ideal para sobrevivência de ovos, que não é ideal para alimentação de filhotes. Então, no ambiente de cativeiro seria necessário controlar e oferecer ambientes apropriados durante todo o processo para que todas as necessidades sejam atendidas. Foram realizadas pesquisas práticas testando várias estruturas e situações para avaliar a importância das condições ambientais e suas conseqüências na reprodução.
A importância em identificar o sexo de reprodutores dependerá da estratégia produtiva empregada na hora de juntar grupos de peixes reprodutores. Formação de casais é necessário para acontecer a reprodução natural. Sabendo o sexo de cada animal, seria possível estocar um casal por tanque. Como dois (um macho e uma fêmea) é o número mínimo necessário para acontecer reprodução,
Condições Climáticas e Físicas Necessárias Ambientes Apropriados para Reprodução
Formação de Casais 26 uma divisão dessas aparentemente seria o uso mais eficiente de um plantel de reprodutores. Acontece que qualquer macho não forma um casal produtivo com qualquer fêmea. Poderíamos trocar parceiros até conseguirmos uma química aceitável entre os dois. Também acontece a formação de casais que reproduzem, mas com baixa produtividade. A eficiência dessa estratégia, então, ainda é questionável. Estratégia que vem funcionando melhor é a de colocar vários peixes juntos, deixando-os escolher seus próprios pares. Casais formados dessa maneira têm grande chance de reproduzir e produzir números maiores. Casais formados assim podem ser removidos de tanques de formação de casais e colocados em tanques de desova.
Muitas descobertas foram possíveis através de observação de peixes em tanques pequenos e em águas claras. Tanques pequenos não são os preferidos dos pirarucus, mas facilitam muito nossa observação deles. Observação dos peixes e seus comportamentos em águas com transparência limitada é difícil. Água transparente é necessário para enxergar todas as suas atividades. Mas, como os pirarucus são bem conscientes daquilo que acontece fora da água, pelo menos perto das bordas dos tanques, a água transparente faz com que os peixes percebam a nossa presença, o que influencia seu comportamento. Em tanques com água transparente, grupos maiores de peixes mostram dificuldades em formar casais e reproduzir. Análise subjetiva dessa observação é que a visibilidade maior dentro da água faz com que os peixes não tenham sossego, sentindo e respondendo à presença dos outros peixes ainda longe deles. Acontecem muitas brigas e nada de reprodução.
Tanques revestidos com lonas de PVC ou PEAD foram montados para manter água clara com proposta de avaliar as conseqüências. Muitas observações interessantes foram possíveis nesses tanques, incluindo a confirmação do fato de que os machos removam ovos dos seus ninhos, levando e segurando-os na boca por tempo prolongado. A primeira desova inteira capturada do ninho e colocada em uma incubadora em cativeiro saiu de um tanque revestido de plástico. Manipulação de qualidade de água em tanques pequenos revestidos é rápida, facilitando análise do impacto de mudanças químicas e físicas da água.
A ideia de fabricar e instalar ninhos artificiais com a esperança de estimular desovas vem de uma técnica improvável utilizada na indústria americana para estimular a reprodução de catfish (animal que por coincidência produz massas de ovos muito parecidas com as do pirarucu). A técnica emprega ninhos artificiais fabricados com latas de leite metálicas. Machos escolhem e defendem essas latas de 20 litros como seus ninhos preferidos. As fêmeas entram para desovar, e os machos chocam as massas de ovos, que ficam colados no fundo. Coleta dos ovos é manual, sendo possível monitorar e coletar ovos de dezenas ou até centenas de “latas” por dia.
Vários modelos de ninhos foram fabricados de concreto, madeira e plástico. Nenhum desses ninhos foi utilizado pelos pirarucus. Outra estratégia foi construir armações de madeira de 3m x 3m, enchendo-as de terra e areia e colocando estes ninhos dentro dos tanques revestidos de plástico. Os resultados foram positivos. Essas áreas foram escolhidas pelos pirarucus para escavar seus próprios ninhos. Assim os tanques plásticos, com suas águas transparentes, serviram para facilitar a observação da reprodução e avançar a tecnologia. Os peixes continuaram desovando dentro desses ninhos por três anos consecutivos, mas não com grande freqüência, nem com desovas grandes. Água transparente é interessante para facilitar observação, e boa para incubação de ovos, mas não tem plâncton para sustentar larvas.
Aparentemente, o ato da escavação do ninho pelo macho e a aprovação da estrutura pela fêmea é importante; as fêmeas exigem ninhos autênticos, escavados pelo seu parceiro para desovar. Pirarucus gostam de solos firmes, podendo conter areia ou cascalho, e, frequentemente o fundo de ninhos ativos de pirarucu contém uma pedra, raiz ou outro material duro. Possivelmente, durante a escavação o macho precisa de um sinal de que o fundo do ninho seja firme mesmo, ou tem instinto de procurar uma “ancora” para segurar a massa de ovos. Às vezes vários ninhos são escavados, um ao lado do outro. Na procura de local ideal para construir seu ninho, o macho às vezes escava vales compridos. Em solos mais firmes, a parte exterior do ninho fica menor. Em terras mais soltas, a parte exterior do ninho acaba tendo diâmetro maior. A profundidade de água onde escava o ninho é pouco variável, sendo mais ou menos de um metro.
Uma das perguntas mais ouvidas é sobre a relação de número de fêmeas e machos que devem ser colocados juntos para maximizar a produtividade. As questões de como os peixes adultos se relacionam quando colocados juntos em tanques é realmente fundamental. A estrutura social que os peixes formam define quais peixes terão direitos reprodutivos. O fato é que dificilmente mais de um casal se formará em um mesmo tanque, independente do número de peixes e a relação entre número de
Muitos peixes estocados juntos teriam pouca probabilidade em reproduzir. Aparentemente, as lutas e as danças que normalmente acabam definindo quais animais seriam os Peixes Alfas que formam casais não acontecem. A confusão causada pelo excesso de contatos é demais e os peixes não conseguem estabelecer casais, etapa necessária para reprodução. Quando foram colocados 30 peixes adultos em um tanque de um hectare, não reproduziram durante um ano. Outras histórias parecidas suportam essa fêmeas e machos. Em tanques maiores, tanques mais compridos, com mais curvas ou mais estruturas, aumenta a possibilidade de formar mais de um casal por tanque. Muitas estratégias já foram testadas, com o objetivo de identificar situações mais eficazes e mais eficientes, com resultados variáveis. Uma descrição de várias estratégias testando estruturas de populações e tanques e seus resultados, segue abaixo. Há muitas possibilidades ainda não testadas que poderiam funcionar bem.
teoria. Certamente o problema é uma questão de densidades excessivas. Assim, os mesmos 30 peixes em um reservatório de 30 hectares teriam condições para formar muitos casais.
Não é conhecida a área mínima necessária para formar um casal quando existem vários peixes no mesmo tanque. Nesse mesmo grupo de 30 peixes, quando foram colocados seis peixes de sexo desconhecido em um tanque de 4.0 m2, um casal se formou quando começaram as
Agrupamento de Pirarucu
Estratégias de Agrupamento (Definição da Estrutura Social) chuvas e reproduziu em seguida. Dificilmente teriam dois casais se formando em tanques comuns de até 10.0 m2, independente do número de peixes presentes e da relação entre número de fêmeas e machos. Para melhorar a eficiência e reduzir custos, uma estratégia lógica é identificar o número mínimo de peixes necessário e o tamanho mínimo dos tanques.
Colocando somente dois peixes (um macho e uma fêmea) em um tanque, sem ser casal formado, pode resultar em casal reprodutivo ou não. A probabilidade foi de 30% dos tanques produzindo casais reprodutivos durante o primeiro ano em uma piscicultura testando essa estratégia. Com sistema 100% confiável de sexagem dos peixes, esse sistema seria mais eficaz. Não é o caso que qualquer dois animais de sexo oposto vão acasalar. Mesmo formando casais, essa estratégia produziu desovas bem menores do que outras estratégias. Nossa idéia de cortar esta etapa natural de escolha e formação de casais compatíveis não produziu os melhores resultados.
Colocando um casal formado em um tanque, a probabilidade de ter reprodução aumentou significativamente, com 67% dos pares reproduzindo durante o primeiro ano. A estratégia utilizando tanques especificamente para formação de casais, com captura de casais e reestocagem em outro “tanque de desova”, vem funcionando bem. Por motivos não conhecidos, certos tanques foram melhores para formação de casais. Tanques maiores, com mais estruturas, plantas ou áreas para esconder são preferidos para formação de casais.
Tanques pequenos servem para reprodução de pirarucu. Tanques com 200 m2 (10m x 20m) tiveram muitas desovas em Rondônia, incluindo desovas repetitivas (três em um ano), e desovas grandes. Tanques pequenos (200 m2) com 2 peixes de 150 kg teriam 15 toneladas por hectare de biomassa, sendo muito peixe em pouca água, situação que acaba sobrecarregando o tanque e comprometendo a qualidade da água. A seu favor, a renovação de água para melhorar sua qualidade é rápida e eficiente devido ao seu pequeno volume. Outro problema com tanques pequenos é que não dá para estocar mais de dois peixes por tanque. Três peixes foram colocados em dois tanques de 200 m2, um tanque com dois machos e uma fêmea, outro tanque com duas fêmeas e um macho. Dois dias depois, apareceram mortos um dos dois machos, e uma das duas fêmeas. Pirarucus adultos brigam e se matam quando apertados em tanques pequenos! Portanto, tanques pequenos servem para receber casais formados, mas não devem ser utilizados para a formação de casais.
O sistema do DNOCS, construído originalmente para reprodutores de pirarucu, era uma bateria de tanques de 100 m2 (10m x 10m), com um canal ligando todos os tanques. Não foram altamente produtivos. Certamente o mesmo sistema com tanques maiores seria mais produtivo. Como os tanques tinham saídas, as lutas entre os peixes não resultaram em mortalidade (pelo menos não foi relatada nenhuma mortalidade dos reprodutores). Onde grupos de peixes são estocados juntos, os tanques devem ter tamanho adequado, ou saídas para que os peixes submissos tenham como fugir dos agressores.

Comenta-se sobre um sistema de Motel, com um tanque ou reservatório maior com tanques pequenos ligados, com esperança dos peixes entrarem nos tanques pequenos para reproduzir. Peixes podem reproduzir em tanques pequenos, desde que não tenham uma opção melhor. Acredito que essa estratégia não é eficaz, pois a tendência dos peixes mais fortes é lutar para defender a área maior e não entrar em áreas apertadas. O sistema seria mais interessante se a área comum fosse menor do que os tanques motéis, ou sem condições para reproduzir. Lembrando que os peixes precisam de substratos adequados (terra firme), e profundidade apropriada (1 metro), poderia montar um sistema onde os hotéis oferecem condições propícias e a área comum não, servindo somente para a fuga de peixes submissos.
Com o objetivo de melhorar a eficiência produtiva de um tanque, avaliar a influência da presença de outros peixes além do casal e prevenir lutas mortais foi construído divisores ou cercas de madeira dentro dos tanques. Esses divisores foram equipados com comportas, para poder controlar acesso e contato entre os peixes. Resultados em geral foram piores do que em tanques sem divisores. Uma estratégia que funcionou foi a de colocar três peixes em um tanque de 600 m2com três divisões, com as comportas mantidas abertas. Um casal se formou e reproduziu três vezes em um ano. Os peixes foram vistos se misturando, com lutas acontecendo de vez em quando. O terceiro peixe era um macho que passava a maior parte do seu tempo na área do lado da área escolhida pelo casal para construir seu ninho.
Tanques maiores são mais produtivos, mas também mais caros para construir. Avaliação do tamanho ideal de tanques vai depender da disponibilidade e custo de terra, da água e de construção. Logicamente o valor dos peixes produzidos teria que ser considerado. O tanque mais produtivo conhecido foi um de 12.0 m2, onde foram estocados seis peixes adultos. Foi deixada aberta uma saída (manilha de 80 cm), de onde saíram três peixes, ficando outros três, sendo dois machos e uma fêmea. Seis, e possivelmente sete, desovas de uma única fêmea foram registradas nesse tanque em cinco meses. O tanque é mais de 50 vezes maior do que os tanques de 200 m2. Não produz 50 vezes mais do que os tanques menores, mas sua produtividade mostra a potencial produtividade de um casal quando tem espaço maior.
Um problema dos tanques maiores é que a observação dos peixes, bem como a captura de ovos, larvas ou alevinos, é bem mais complicada.
Resumindo, os sistemas que juntaram muitos peixes não deram bons resultados. Com altas densidades e grupos maiores a confusão não facilita a reprodução, mas pelo menos não acaba em mortalidades. Produção ou engorda de plantéis de reprodutores poderiam trabalhar com densidades altas. Tanques de formação de casais teriam que trabalhar com densidades menores, e em tanques de desova, deveria reduzir para dois ou três peixes. Enquanto um segundo macho com o casal estimula desovas, vários peixes causam confusão. O instinto do pirarucu é de lutar (principalmente entre os machos), e lutas breves e seguras são adequadas para estimular o processo, sendo possível provocar esta situação sem machucar os participantes.
*Fora da época reprodutiva a interação social entre animais adultos muda bastante. A convivência é muita mais tranqüila. Casais interagem com outros peixes. Linhas invisíveis que marcam territórios defendidos em lutas mortais durante a época reprodutiva, fora dessa época desaparecem. Os cuidados necessários para proteger peixes durante a época produtiva podem ser relaxados.
Onde tem adultos juntos, desovas podem acontecer. Enquanto a época de chuva define a época reprodutiva de pirarucu, ocasionalmente podem acontecer desovas fora da época normal. Em regiões onde as épocas de chuva e a da seca são menos distinta, peixes podem estar “preparados” em praticamente qualquer época do ano. Fundamental é a observação dos reprodutores, aprendendo reconhecer as mudanças físicas e comportamentais que acontecem e sinalizam a preparação para a reprodução.
Casais formados podem reproduzir logo em seguida, principalmente aqueles formados no meio da época reprodutiva. Ou, esses comportamentos podem durar semanas. Sem estímulos ambientais ou as condições básicas adequados, o processo parece estacionar, sem prosseguir para a próxima etapa.Normalmente, no início da época das chuvas as temperaturas são altas. Quando começa a chover, o comportamento dos peixes se ficam visivelmente mais avermelhados. Sinalizam que estão competindo para estabelecer territórios com pancadas das caudas na superfície da água. Peixes se agregam, nadando em círculos, um em volta do outro. Sem água transparente, poderia não se enxergar este comportamento. Começam a correr um atrás do outro. De repente, dois peixes começam a nadar juntos, um paralelo ao outro. As cores se intensificam. A formação do casal acontece com facilidade, às vezes não se percebe que aconteceu. Dois peixes vermelhos nadando juntos é sinal provável do acasalamento. Agora lutas com outros peixes são mais freqüentes e mais agressivas. Turbulência forte na beira do tanque mostra onde um peixe está atacando outro. O casal já formado luta para se manter.
Manchas de água turva aparecerão na hora dos peixes escavarem seus ninhos, tipicamente perto da beira do tanque. É o serviço principalmente do macho; a fêmea pode participar. Ele já está mais vermelho do que ela. Às vezes aparece a cauda dele fora da água, ou pelo menos cria uma turbulência na superfície enquanto escava com sua boca. A boca do macho fica avermelhada, machucada pelo serviço. Os peixes respiram com maior freqüência devido ao exercício físico envolvido, subindo a cada cinco minutos ou menos enquanto trabalham.
Agora as lutas com outros peixes podem ser bem agressivas. Ninhos são defendidos com muita seriedade. Às vezes uma desova é depositada em um ninho recémescavado. Tipicamente, escavação e acabamento de ninhos é trabalho mais prolongado, podendo durar uma a algumas semanas antes de receber a primeira desova. A manutenção de ninhos é serviço intermitente durante a estação inteira, até cinco meses do ano.
Perceber que tem um casal escavando um ninho é importante. Tipicamente o “ninho principal” acaba sendo mantido durante a estação inteira, e às vezes por vários anos em seguida. Marcar o local exato do ninho é interessante, pois é o local onde a captura de ovos ou larvas pode ser feita, e é necessário saber onde os peixes estão para poder avaliar seu comportamento. Às vezes dois ou três ninhos são escavados, um perto do outro, sendo nesse caso um “local principal”, e não um ninho único.
Preparação para as Desovas
As desovas normalmente acontecem um ou dois dias depois de uma chuva forte, quando a água está com 290C. Aparentemente a fêmea passa várias vezes por cima do ninho durante a desova, com o macho fecundando cada parcela da desova. Não sabemos quanto tempo demora para ela terminar sua desova. Os dois peixes aparecem perto do ninho com frequência durante a desova. Depois de terminar a desova, começa a rotina de chocar, com a fêmea parada com sua cabeça em cima do ninho. Ela é capaz de ficar até 45 minutos sem subir para respirar. A tomada de ar dela normalmente acontece poucos metros do ninho. É possível distinguir uma diferença no comportamento respiratório dela, sendo que agora sua tomada de ar é rápida, e que o movimento do seu corpo não é linear como é normalmente na hora de aparecer na superfície, sendo mais inclinado e sempre descendo em direção ao ninho.
O macho, por sua parte, fica vigiando um perímetro, geralmente de 5 a 10 metros do ninho. Ele respira com frequencia. Aparecendo ao redor do ninho, chegando a encostar sua cabeça com a da fêmea, em cima do ninho. Durante a respiração da fêmea, ele fica no lugar dela em cima do ninho. Dificilmente um ninho com ovos ou larvas encontra-se sem o pai ou a mãe vigiando a prole com a cabeça encostada no ninho.
A água dos tanques de desova deve ser de boa qualidade, com oxigênio dissolvido o mais perto possível do ponto de saturação. Ovos e larvas recémnascidos precisam de níveis adequados de oxigênio. Foram registradas desovas saudáveis acontecendo em águas bem ácidas, neutras e levemente alcalinas (de pH de 5 a 8). Água verde com fitoplâncton pode atrapalhar desovas e sobrevivência. Água turva também não é ideal, apesar de uma turbidez leve e temporária não ser um grande problema. Pode ser necessário renovar água para evitar esses problemas. Substratos adequados para escavação de ninhos é fundamental. Precisa de terra firme, podendo ser misturado com areia ou cascalho. Solo com argila fina que causa turbidez da água não é interessante. Solo muito orgânico ou “turfa” não é bom, nem areia solta. Ausência de predadores aquáticos no tanque é importante, principalmente se a estratégia não é a de remover ovos ou larvas imediatamente. Água transparente é aceitável, desde que essa situação não continue por tempo prolongado, pois plantas aquáticas tendem tomar conta desses tanques, não sendo desejável. Algumas plantas aquáticas não atrapalham. Peixes adultos gostam de sombra. Passam tempo nas beiras dos tanques onde tem sombra. Sombras artificiais podem ser colocadas em tanques que não oferecem sombra natural.
Captura de ovos ou larvas do ninho é mais complicada com água transparente, pois os peixes adultos conseguem enxergar nossa presença, dando oportunidade para o macho coletar a prole na boca.
Desovas
Condições Físicas Importantes em Tanques de Reprodução
Uma estratégia melhor de como capturar ovos do ninho promete ser o avanço que aumentará significativamente a produtividade de alevinos de pirarucu. Até agora a captura e a incubação de ovos permanecem um desafio complicado, mesmo que já tenham sido feitas com sucesso.
A captura de larvas recém eclodidas do ninho já é uma estratégia consagrada. Uma estratégia mais antiga é a de esperar que os adultos criem os filhotes até um tamanho maior. Pescadores de peixes silvestres gostam de peixes maiores e mais fortes, de 8 a 15 cm. Produtores de pirarucu em cativeiro capturam peixes menores, tipicamente de 5 a 8 cm, aumentando significativamente o número capturado por desova. Um problema em esperar para capturar peixes maiores é que a grande variedade de predadores é difícil controlar e esses comem filhotes de pirarucu sem parar. Outro problema é que as larvas precisam de comida após sair do ninho. Para produzir plâncton suficiente para alimentar as larvas, é necessário adubar o tanque para estimular produção de plâncton. Isso é um pouco arriscado, pois as larvas novas respiram com suas brânquias por alguns dias, e a adubação tem como conseqüência abaixar o oxigênio dissolvido, sendo perigoso para as larvas. A adubação também faz com que o tanque fique com qualidade de água comprometida pa ra a próxima desova. O tempo necessário para os pais criarem esses filhotes é tempo perdido, no sentido de que não vão reproduzir novamente até que saiam do tanque todos seus filhotes. Às vezes não é fácil capturar todos os filhotes, pois eles ficam mais rápidos e mais espertos a cada dia.
Captura de ovos do ninho ainda é estratégia difícil de ser realizada, devido ao comportamento do macho em catar a massa de ovos em sua boca. Aparentemente a fêmea não faz isso. É possível capturar o macho com os ovos na boca utilizando rede de arrasto. O macho segura a massa até o momento em que ele entra em pânico e salta. O processo é traumático e perigoso para a massa delicada. Há risco de perder ou machucar os ovos. Existe a possibilidade de o macho engolir a massa. Outra estratégia utilizada é a de remover ovos do ninho no momento do macho subir para respirar. Precisa estar escondido muito perto do ninho para conseguir chegar até ele antes do macho. A massa de ovos pode ser removida da água com as mãos e colocada dentro de uma bacia com água.
A distância do ninho mantida pelo macho aumenta depois do nascimento das larvas, dando mais tempo para chegar até o ninho antes de chegar o macho. Geralmente o macho não fica no lugar da fêmea, em cima do ninho enquanto a fêmea respira quando o ninho está com larvas. É menos provável que o macho resolva catar as larvas do ninho, enquanto é uma certeza que nossa entrada em seu ninho provoca essa reação quando ainda está com ovos. Melhores resultados foram conseguidos entrando no ninho diretamente de um esconderijo que fica bem perto do ninho, sem os peixes saberem da presença da pessoa antes de sua entrada na água. Muito cuidado deve ser tomado na hora de entrar no ninho, achando a beirada do ninho com o pé sem pisar dentro. As larvas são muito delicadas. Sentir a presença das larvas no ninho com a mão pode ser difícil, já que são muito pequenas. Larvas devem ser removidas do ninho com uma peneira plástica de tamanho médio (diâmetro de 20 cm) com tela bem fina, de menos de 1 m. (Fotos à direita, acima)
Capturar Ovos, Larvas ou Alevinos?
Não se deve raspar a peneira no fundo do ninho para evitar esmagar as larvas. Um movimento com a mão livre para empurrar água com as larvas dentro da peneira (sem encostar a mão no ninho) funciona bem. Devem ser transferidos para uma bacia, sendo importante não tirar as larvas da água, depois as larvas com a água da bacia podem ser despejadas dentro de um saco ou outro contêiner. Ovos, larvas e alevinos agüentam bem o transporte em sacos fechados com oxigênio.
Precisa manter água de transporte e de tanques recipientes saturados com oxigênio dissolvido, perto de 7 ppm (veja Foto). Cuidados normais empregados com outros peixes tropicais devem ser observados, mantendo a temperatura do tanque original (normalmente de 28 a 300C), evitando choque térmico e outras mudanças bruscas entre a água do tanque de origem a água de transporte e a água de tanques recipientes. Assim, a água deve ser trocada aos poucos na hora de soltar.
Uma estratégia, que é mais prática para produtores menos experientes, a é de capturar larvas na hora que saem do ninho. É relativamente fácil enxergar o momento em que as larvas saem do ninho, pois o macho muda de cor, ficando preto. Ele sobe com as larvas em volta dele, e sai nadando lentamente pela superfície do tanque. Nesse momento, as larvas são lentas e vulneráveis, a prole fica fácil de capturar. Como as larvas ainda não estão se alimentando, não é necessário se preocupar com a presença de comida nos tanques delas. É um momento propício para realizar a captura. Devem ser capturadas sem passar o segundo dia, pois o consumo do saco vitelino acaba e precisam ser alimentadas imediatamente, quando seu sistema digestivo termina sua formação. Larvas devem ser capturadas de manhã para evitar temperaturas elevadas da água superficial. Ferramenta preferida é puçá de 60 a 80 cm diâmetro, com cabo leve e comprido (4 m) e tela resistente de 1 m ou menos. Um lance perfeito com o puçá captura todas as larvas da desova em uma vez (veja Foto).
É importante evitar bater no macho com o puçá, pois um susto grande pode fazer com que ele abandone a prole, que pode se perder. O puçá com as larvas não devem ser removidos da água, sendo possível remover lãs do puçá com uma bacia, trazendo água e larvas juntas dentro da bacia com água. Em seguida, são colocados dentro de um saco de transporte ou outro contêiner adequado, observando os cuidados descritos para ovos ou larvas.
Captura de pós-larvas com puçá
Tanque Redondo de 1.0 l com Alevinos de 10 cm
Larvas dentro do laboratório poderiam ser alojadas em tanques redondos ou calhas, sendo que uma superfície interna lisa, como de plástico, fibra de vidro, pedra, ou aço inox é importante. Tanques redondos são preferidos, pois facilitam limpeza. Tanques redondos de 1.0 a 1.500 litros funcionam bem e servem para todas as fases do processo (veja Foto).
Tanques maiores podem ser interessantes para alevinos maiores. Devem ser equipados com uma saída de 1,5 ou 2 polegadas no centro do tanque, com cano vertical furado no centro e o externo com cotovelo móvel para poder regular o nível do tanque. Entrada pode ser de 1,5 ou 2 polegadas. Telas removíveis de tamanhos diferentes, confeccionadas em tubos e colocadas em volta do cano furado servem para conter os peixes de tamanhos diferentes, deixando passar sujeira. A tela adequada para larvas recémeclodidas é de menos de 1 m.
Até 10.0 larvas recém-eclodidas podem ser estocadas em um tanque de 1.500 litros. O nível da água deve ser mantido em 20 a 40 cm de profundidade. Depois de começar a se alimentar bem, com 10 dias após a eclosão, deve-se reduzir a densidade pela metade, ou de 3.0 por m3, aumentando a profundidade para 40 a 80 cm.
Para manter peixes de cinco cm no laboratório, é recomendado reduzir a densidade para 2.0 por m3. Com oito cm, uma densidade de 1.0/ m3 é apropriada. Larvas e pós-larvas precisam de bons níveis de oxigênio dissolvido, perto da saturação, e sem ser supersaturada. Pequenos alevinos começam a respirar ar com poucos dias de vida, mas a transição da respiração aérea não é imediata. Depois de 12 a 15 dias após a eclosão, os peixes não precisam mais de oxigenação ou aeração da água. Água deve ser limpa e livre de sólidos em suspensão. As brânquias de larvas de pirarucu são externas, e bem sensíveis a problemas de qualidade de água como amônia elevada, oxigênio baixo e água turva. Sujeira deve ser aspirada do fundo pelo menos duas vezes por dia. Evitam correntezas de água, exceto na hora de limpar os tanques, quando rotação suave da água dos tanques pode ser utilizada para remoção de sujeira.
Limpeza deve incluir todas as superfícies e a tela. Renovação de água para larvas de uma troca por hora é suficiente. É necessário aumentar a renovação de água comensurada com o tamanho dos peixes.
Depois do 5º dia após a eclosão, as larvas começam se alimentar. Aceitam náuplias de artemia ou zooplâncton de menos de 200 micras. Espécies de zooplâncton menores são
Larvicultura e Alevinagem em Laboratório melhores, sendo que juvenis de cladóceros são os preferidos. Deveria evitar fontes de plâncton rico em juvenis de copépodes, pois essas podem machucar as larvas. As larvas comem pouco nos primeiros dias, mas seu consumo aumenta rapidamente. A oferta de zooplâncton vivo garante que o alimento fique suspenso na coluna de água, onde as larvas procuram comida por instinto (veja Foto).
Zooplâncton vivo não suja o tanque igual outros alimentos, sendo grande vantagem para evitar problemas com doenças. Não tem outro alimento tão perfeito para pirarucus pequenos. Oferta de zooplâncton deve ser de duas em duas horas, e não pode ser à vontade. Zooplâncton deve ser peneirado na hora de tratar, passando água com plâncton por uma peneira de um m para remover organismos maiores. Para facilitar quantificação das refeições o plâncton peneirado pode ser colocado em cima de outra peneira fina de 50 micras. Esse processo de “deságua” do plâncton deixa uma massa de plâncton vivo, que pode ser quantificado para ajudar em medição padronizada dos tratos.
Pirarucus são capazes de comer mais do que devem, e grandes quantidades de plâncton colocadas de uma vez com as larvas pode ser prejudicial ou fatal. A regra é de refeições leves e freqüentes. A melhor maneira de ajustar a quantidade de plâncton a ser oferecida é de examinar as barrigas dos peixes durante a alimentação. A porcentagem do zooplâncton, sendo oferecido que é consumível, é difícil de ser calculada. Existem organismos que o pirarucu não consegue ou prefere não ingerir.
A barriga de todos os peixes deve ser visivelmente arredondada depois da refeição, sem atrapalhar a natação dos peixes (veja Foto).
Peixes comendo em excesso têm dificuldades em nadar, com a tendência de virar de barriga para cima. Avaliar a concentração de plâncton sobrando na água é hábito importante.
Colocando plâncton em cada tanque, aos poucos, em 10 a 15 minutos devem encher as barrigas, sobrando uma concentração leve de plâncton na água. Basicamente, depois das de horas, não deve ter mais plâncton (consumível) na água e as barrigas não vão estar mais redondas. Os peixes podem passar a noite sem comer, sendo que de 6 a 8 horas sem comer é o certo.
*Peixes machucados ou mortos, com ponta da cauda esbranquiçada, indicam que os peixes estão se mordendo, geralmente devido a problemas nutricionais (alimento inadequado ou fome). O metabolismo do pirarucu é impressionante! Basicamente não são canibais, mas a fome faz com que eles se mordam. Falta de comida crônica faz com que os peixes emagreçam e passem mal. Classificação de peixes para manter peixes do mesmo padrão juntos é necessário somente quando alimentação inadequada facilita crescimento desuniforme. Quando peixes de tamanhos bem diferentes são misturados, podem aparecer peixes machucados com caudas mordidas. Esse problema se torna mais grave quando os peixes não são bem alimentados com alimentos de qualidade. Às vezes, forçando a transição de plâncton para ração antes de todos os peixes estarem prontos, pode causar crescimento desuniforme. Isso indica que ajustes no manejo são necessários. Peixes podem ser classificados com classificadores que utilizam barras ou canos paralelos, ou manualmente. Bem-alimentados, crescimento uniforme facilita muito o manejo de alevinos de pirarucu, sendo desnecessário trabalho com classificação. Boa alimentação é a chave principal na produção desse animal.
“Boa alimentação é a chave principal na produção desse animal”.
Pirarucus bem tratados e mantidos em água de boa qualidade com manejo adequado dos tanques não apresentam problemas graves com doenças. Uma única desova de larvas capturadas dentro do ninho e criadas no laboratório, usando as técnicas descritas aqui foi vendida com 1 a 12 cm, com uma sobrevivência de 9%, sem uso nenhum de medicamentos.

Banhos diários de uma hora com 100 ppm de base de oxitetraciclina impedem problemas eventuais com bacterioses em peixes pequenos. No caso de aparecerem parasitos nas brânquias dos alevinos, podem ser administrados banhos de Masoten, de acordo com recomendações do fabricante. Banhos de sal em concentração de 1% por 24 horas são eficazes também.
Tratamento de Doenças
Zooplâncton é o grupo de animais aquáticos bem pequenos que aparecem em corpos de água naturais e tanques escavados, e são alimentos naturais e perfeitos para alevinos de pirarucu. Produção de zooplâncton é prolífico, e pode ser capturada em tanques de engorda de outros peixes, ou em tanques especializados para esse fim. Tanques não recebendo ração devem ser adubados. Zooplâncton é facilmente capturado, puxando uma rede de plâncton. Redes de plâncton podem ser confeccionadas (veja desenho):
Produção de Zooplâncton
Uma armação fabricada de ferro redondo (barra de 3m) de 1/4 a 3/8 polegadas deve ser dobrada e amarrada ou soldada nos pontos para formar um retângulo de 1 m x 50 cm, e serve como boca da rede. A tela deve ser de 100 a 200 micras, sendo que um material barato e adequado é tecido chamado de organza, facilmente disponível em lojas de tecidos. O tecido deve ser cortado e costurado em forma de cone, com aplicação de cola de sapato nas emendas para vedar e fortalecer. Uma garrafa de 2 litros, com fundo cortado é amarrando no final do funil da rede com borracha, serve para esvaziar o conteúdo. Duas garrafas PET amarradas na parte superior da armação servem como boias, com uma corda comprida para puxar. O Plâncton fica concentrado na garrafa no fundo da rede, e deve ser colocado em baldes de 20l com água para transporte rápido até o laboratório, onde pode ficar estocado por algumas horas em incubadoras, tanques com aeração ou sacos com oxigênio. Melhor é alimentar com zooplâncton recém capturada.
Produção de zooplâncton pode ser realizada através de adubação orgânica e/ou química da água. As possíveis receitas para produção de zooplâncton são infinitas. Basicamente, produção eficiente de zooplâncton requer produção de fitoplâncton, as microplantas que esverdeiam a água e que servem como base da cadeia alimentar. O zooplancton consome o fitoplâncton. Correção de pH estimula a produção dos plânctons, e geralmente aplicações de 1 a 4 toneladas de calcário agrícola por hectare são necessários para aumentar alcalinidade da água para 20 a 30 mg/l. É necessário aplicar macronutrientes para produzir fitoplâncton, sendo N (nitrogênio), P (fósforo) e K (potássio). Importantes são o N e P. Aplicação de adubos químicos na forma de fertilizantes agrícolas é eficaz e conveniente. Aplicação de matéria orgânica pode ser utilizada para acelerar e aumentar produtividade de plâncton. Matéria orgânica fornece outros micronutrientes que adubam a produção de fitoplâncton, estimula produção de uma grande variedade de outros microrganismos que o zooplâncton é capaz de ingerir e as partículas de matéria orgânica são consumidas diretamente pelo zooplâncton, dando uma resposta mais rápida. Popular entre produtores de alevinos são as farinhas de origem animal e os farelos vegetais (carne, sangue, arroz, semente de algodão, entre outros), e estercos (boi, cama de frango etc.).
Melhor opção dependerá da disponibilidade e do custo dos vários materiais. Quantidade de adubos aplicada em tanques sem peixes vivos pode ser mais liberal, sendo que não tem perigo de matar os peixes. Produtos devem ser bem distribuídos nos tanques. Muitos produtores preferem misturar os materiais em água antes de lançar nos tanques, principalmente os adubos químicos. Adubação pesada é capaz de produzir plâncton suficiente para 100.0 alevinos de pirarucu em um hectare de água (10.0 m2) durante uma estação. De adubo: 200 kg de P, 300 kg de N (lembrando que esses produtos são diluídos, 200 kg de P significa 1.0 kg de produto de 20% pureza), e quatro toneladas de farinha de carne seriam suficientes, distribuídas ao longo do ano. Substituindo outros farelos vegetais com menos proteína, teria que aplicar mais (5 a 6 toneladas), com mais ainda de esterco seco (10 a 15 toneladas). Requerimentos variam, pois a variabilidade entre a qualidade de água, de solo, de materiais, de adubação prévia do tanque etc., é grande. Avaliação diária da produção de plâncton e o consumo dos peixes definem a necessidade em aumentar ou diminuir aplicações e área dedicada à produção de plâncton.
Ensinar peixes carnívoros a se alimentarem exclusivamente de rações secas é atividade bastante complicada para algumas espécies, menos com outras. Pirarucu deve ser uma das espécies mais fáceis de todas, sendo que o animal não é totalmente carnívoro. O fato de o pirarucu ser peixe filtrador, que continua consumindo zooplâncton por muitos meses, facilita muito esse trabalho. Técnicas complexas utilizadas com outras espécies de peixes carnívoras, envolvendo fabricação de uma seqüência de rações úmidas, que contem peixe moído ou outras carnes, não são necessárias.
A transição de zooplâncton para ração comercial no caso de pirarucu é direta. Fundamental em desenvolver esse processo simplificado foi a identificação do “período crítico” para realizar a transição. Existe um momento certo em que os peixes mudam de comportamento e fica fácil executar a transição com peixes desse tamanho, que é de +/- sete cm.
Pós-larvas pequenas de pirarucu formam cardumes bem organizados por instinto. Seu comportamento alimentar é de nadar em frente, um peixe ao lado do outro, um para cima, outro para baixo, cada um abrindo e fechando a boca, sem identificar visualmente sua presa (veja Foto).
O grupo é eficiente e a distribuição dos alimentos disponível é justa. Cada indivíduo não tem vantagem sobre o outro, pois a entrada do zooplâncton na boca é cega e aleatória. Assim, o grupo não para. Continua em frente. Apresentação de ração enquanto os peixes se alimentam assim é fútil, pois os peixes não param para olhar e a maior parte da ração seria desperdiçada, caindo até o fundo e poluindo o tanque. Quando atinge um tamanho de 7 cm, os peixes começam a procurar presas individuais, parando para olhar e catar organismos da água. Este é o momento correto para começar a realizar o “treinamento” (veja Foto).
Treimento alimentar
naComo o pirarucu mantém interesse no zooplâncton, mas já procura organismos de tamanho maior, é questão simplesmente de oferecer uma ração de tamanho apropriado (de 0,5 a 0,8 m), com sabor de zooplâncton. Zooplâncton vivo peneirado para escoar água, depois misturado com ração extrusada desse tamanho, é consumido entusiasticamente pelo pirarucu. Gradualmente, o zooplâncton é removido da dieta. Em mais ou menos dez dias, os peixes aprendem a comer a ração. A primeira marca de ração que apareceu com qualidade adequada para facilitar este trabalho foi a ração Aquaxcell da Purina. Depois do treinamento, os peixes devem ser tratados de 4 a 5 vezes por dia, novamente não deixando que eles se alimentem totalmente à vontade. Peixes de 9 a 10 cm são bem-alimentados consumindo de 5 a 6% do seu peso por dia (veja Foto). A quantidade de plâncton disponível faz com que essas quantidades variem.
Produtores com menos experiência, ou sem laboratórios, podem produzir pirarucu de qualidade sem laboratório. Simplesmente capturando pós-larvas (alevinos pequenos) já nadando, transferindo-as para tanques adubados e realizando a transição para a ração seca dentro do próprio tanque, é processo simples, rápido e eficaz. Tanques escavados expostos aos pássaros devem ser cobertos com redes antipássaros para proteger contra predadores voadores. Para evitar presença de peixes invasores, entradas devem ser equipadas com telas resistentes de 350 micras para filtrar ovos, larvas e peixes maiores. Esses filtros devem ser limpos com frequencia. Produtores mais experientes podem manter peixes pequenos dentro do laboratório por períodos curtos antes de soltar os peixes em tanques escavados, aumentando sobrevivência durante essa fase mais delicada. Produção de alevinos em tanques externos requer mais cuidados com adubação, com monitoramento constante de concentração de plâncton consumo dos peixes, de qualidade de água, e proteção contra predadores. Estocagem de cinco peixes por m2 funciona. Treinamento alimentar requer mais atenção, pois sem estar confinada em tanques pequenos, a ração não vai cair em suas bocas. Persistência é necessária.
Uma tática que funciona para viabilizar a produção de pirarucu são as parcerias. Produtores com casais formados entregam larvas e pós-larvas a produtores especializados que possuem estruturas maiores, laboratórios e condições para lidar com produção mais intensiva e canais para comercialização de alevinos.
Captura de alevinos de pirarucu, com redes de arrasto em tanques escavados, ou com puçás em tanques menores, é relativamente fácil comparado com outros peixes. Dificilmente pulam, e ficam na coluna de água. Como andam perto da superfície em grupos, fica fácil a captura parcial em tanques escavados. Importante é não fechar peixes dentro de redes, sacos ou tanques sem espaço aberto em cima. Pirarucus morrem afogados quando não conseguem respirar na superfície. Quando colocados em baldes ou outros contêineres para transporte de um tanque para outro, é importante não colocar muitos peixes, pois precisam de espaço para subir e respirar.
Produção Extensiva
Produção Extensiva Manejo e Transporte
(veja Fotos)
Alevinos de pirarucu podem ser transportados em tanques de transporte ou em sacos com oxigênio
Não precisam de cuidados especiais em sacos de transporte. Em caixas de transporte, não precisam de oxigênio ou aeração. Não é necessário adição de sal em água de transporte. Como é necessário manter um espaço aberto para respiração aérea, a tendência da água é balançar dentro do tanque parcialmente cheio, o que é perigoso para os peixes. Estratégia que funciona bem é a de colocar e inflar uma câmara de ar de caminhão dentro da caixa, fazendo com que a câmara fique flutuando na água, apertando a parte superior do tanque. Assim, a água não balança muito, e fica aberto o espaço no centro para respiração. Com renovações adequadas para manter água limpa, esse sistema é utilizado para transportar alevinos de pirarucu de longas distâncias sem mortalidades.
Sacos Fechados:
Peixes pequenos de 10 a 14 cm: 50-75 gramas por litro de água, com 25% água e 75% oxigênio Peixes maiores de 15 a 20 cm: 75-100 gramas por litro de água, com 25% água e 75% oxigênio
Caixas abertas:
Peixes pequenos de 10 a 14 cm: 20-30 g por litro de água Peixes maiores de 15 a 20 cm: 30-40 g por litro de água
Informações vindas de histórias e principalmente de observações diretas de pirarucu em cativeiro, acabaram estimulando muitas teorias sobre a reprodução dessa espécie. Essas teorias tiveram que ser testadas e verificadas. O entendimento da natureza da reprodução de pirarucu foi aplicado na formação de estratégias sobre como industrializar a produção de alevinos de pirarucu. Assim, juntaram-se os pedaços desse grande quebracabeça, que acabam descrevendo uma tecnologia adequada para orientar uma atividade bastante complexa. Alevinos de pirarucu produzidos em cativeiro mostram sobrevivência e produtividade muito superior aos peixes capturados na natureza. A oportunidade para desenvolver projetos com melhoramento genético de pirarucu é clara, prometendo melhorar ainda mais a qualidade de peixes produzidos em cativeiro.
A sobrevivência dessa espécie na natureza dependerá da continuação do processo de seleção natural, que vem funcionando durante os 300 milhões de anos de existência do pirarucu. Vale reforçar a importância de se respeitar as leis ambientais referentes a pesca de pirarucu, não se praticando a captura ilegal dessa espécie maravilhosa! Acreditamos que avanços com a tecnologia sustentável da piscicultura são fundamentais para o futuro dessa espécie e de todas as espécies aquáticas. Esse trabalho é oferecido com a esperança de que nessas ideias sobre o pirarucu sejam úteis para quem deseja trabalhar com seriedade com reprodução desse animal. Acreditamos que este documento sirva para orientar produtores novatos e esclarecer algumas dúvidas de produtores mais experientes. Apesar disso, não é tão simples quanto uma receita de bolo. A atividade não é para qualquer pessoa. O assunto é complexo, e a produção de peixe dá muito trabalho! As responsabilidades envolvidas em produzir alevinos de pirarucu são muitas e constantes.
Os peixes não vão reproduzir o ano todo, mas os cuidados não param. Peixes não tiram férias! Existem produtores responsáveis que vão obter sucesso com a atividade, e outros que não vão realizar os cuidados necessários para que a atividade seja viável econômica e ecologicamente. Todos os detalhes envolvidos na produção de alevinos de pirarucu descritos neste documento representam soluções a para os muitos problemas sentidos durante as tentativas de descobrir como fazer o pirarucu reproduzir, como produzir mais, como perder menos e, finalmente como simplificar todo processo. O resultado é que ficou muito mais fácil produzir. Sofremos enquanto os peixes não reproduziram, quando aconteceram mortalidades, mas nunca desistimos. Sempre achamos soluções que deixaram o trabalho mais rentável, menos frustrante e menos trabalhoso. “Se problemas acontecem, significa que algo errado está sendo feito e que pode ser resolvido”. Como produtor, esta mantra deve ser seu guia. Esperamos que as teorias divulgadas e os desafios sugeridos sirvam para estimular outras investigações e pesquisas.
Enquanto várias observações e aprendizagens já foram transformadas em estratégias práticas, atualmente sendo aplicadas na produção de alevinos de pirarucu, certamente teria muito espaço para novas descobertas, esclarecimentos e melhoramento da tecnologia. Continuaremos trabalhando com o objetivo de aperfeiçoar as tecnologias aplicadas na produção de pirarucu em cativeiro, acreditando em um grande futuro para essa espécie. Comunicações serão bem-vindas, sabendo que juntos sempre conseguiremos realizar mais nossos objetivos.